05 Novembro, 2009

Chaka Khan "Funk Drum Groove"

04 Novembro, 2009

O jéca e o tinhoso

Vinha o jéca voltando de um fim de tarde infrutífero de mãos abanando sem ter pego nem lambari naquele córrego. E fazia sol. O jéca é ecologicamente sustentável mas não tem dó dos bichinhos — aliás nem pensa neles, nem pensa mesmo, vai pensar em bicho, peixe e frango é comida, cachorro não, e pronto. Afinal, peixe é fruta que nada. Enfim, alheio à própria cultura na qual vive imerso, vinha o jéca voltando daquela pescaria mal-sucedida. E trilhando a picada de chão sob o sol do fim de tarde ainda matutava o que ia dizer pra patroa por que voltava de mãos abanando. E uma nesga de medo, chamado eufemisticamente de receio muitas vezes, preocupava o jéca. E vinha matutando mentiras na lata de jéca pescador de córrego. A mentirinha era fácil de enganar a mulher, o pior mesmo era o que ele ia comer. A feira na cidade ainda estava longe lá no sábado, então já viu. Nessas cismas vinha andando, entre pedras e árvores caminhando pelo chão de terra, na trilha que percorria no fim de tarde debaixo do sol.

Eis que aconteceu o evento temático deste pequeno conto narrativo. Após virar uma curva com uma pedra de tamanho razoável, de altura maior que a de um homem médio, à margem da trilha de chão, o jéca deparou-se com um tipo de paletó preto e calças pretas e chapéu preto parado na trilha. O jéca olhou para o rosto do tipo, evidententemente o tinhoso evidenciado no título do conto, que sorria mostrando os dentes, e soltou um cumprimento bastarde típico da roça. Sentia uma estranheza naquele momento e mais uma ponta de medo — o jéca além de acomodado no canto era covarde — e fez que ia passar pelo tipo. Mas o cabrunco respondeu ao cumprimento e com sua postura firme impôs sua presença e perguntou o que o jéca vinha cismando. Uma conversa mole seguiu-se, e o jéca seguiu andando contente o seu caminho com um peixe grande na sacola e uma heróica história de pescador na cachola. Até aí não se preocupava com seu futuro destino faustiano e saboreou seu jantar sem culpa cristã. Assim a falsa tranquilidade da cachaça e da preguiça do jéca continuavam a envolver sua vida sem que ela de fato medrasse, até sua morte. E o progresso continuava avançando e engolindo essas paragens, e o jéca já sonhava com um emprego assalariado na indústria automobilística, porque o imposto da roça já estava alto e as vendas na feira não davam mais pra nada. E assim o jéca ia pro inferno.

28 Outubro, 2009

joga as cascas pra lá!!!


27 Outubro, 2009

Ching-Yun Hu toca Étude No. 10, "Der Zauberlehrling", de Ligeti



Der Zauberlehrling traduz-se como "Aprendiz de feiticeiro".
A peça é parte de uma série de oito estudos para piano composta entre 1988 e 1993.
György Ligeti (1923-2006) foi um compositor húngaro.
Ching-Yun Hu é pianista taiwanesa.

A fronteira sem portões --- 13

Deshan leva sua tigela

Um dia Deshan foi à sala de baixo levando sua tigela. Xuefeng o viu e perguntou, “Camarada, o sino não tocou, o peixe não soou, aonde vai com sua tigela?”. Shan voltou-se e seguiu aos dormitórios.
Feng mencionou isso a Yantou, que comentou, “Deshan é renomado, mas ainda não encontrou a sentença última”. Shan ouviu falar disso e pediu para seu assistente chamar Yantou, e então perguntou, “Então você não concorda com o velho monge?”. Yantou sussurrou o que queria dizer e Shan não falou nada, mas no dia seguinte subiu ao seu assento e o fruto que partilhou foi bem diferente do usual. Yantou foi até a frente do salão dos monges, batendo palmas e rindo, e disse, “Que ocasião feliz, o velho camarada encontrou a sentença última! De agora em diante, nenhuma pessoa sob o céu pode superá-lo”.

Wumen diz:

Quanto à sentença última, nem Deshan nem Yantou sequer sonharam com ela. Examinando bem, posteriormente, percebe-se que são como bonecos em uma estante!

A canção diz:

Se conhecer a primeira sentença,
Então encontra a sentença última;
A primeira e a última,
Não são uma mesma sentença?

22 Outubro, 2009

DESTINO

Salvador Dali + Walt Disney...DERRETIDO!

19 Outubro, 2009

Re: Mais cult do que roots [5]

Maurício,

em momento algum eu quis ser maldoso ou ofender pessoalmente você ou teus colegas de trabalho comerciantes ou donos de sebo. Na verdade nem me ocorreu incluir essa categoria, por assim dizer, no comentário.
Estava falando dos colecionadores, como você consequentemente é, mas como eu também sou (inclusive não tenho nenhum vinil de heavy metal, nem mesmo o primeiro do Black Sabbath) e outros tantos amigos que conheço são. Inclusive não me excluo dessa "elite" que critiquei. Se você se sentiu ofendido peço desculpas aqui no blog pois, de coração, essa não era nem de longe a intensão. Inclusive pela falta de intimidade que temos, seria ignorância minha te atacar pessoalmente afim de te ofender da forma como sinto que voc6e ficou ofendido.

Conversando com um MC de HipHop daqui, fiquei sabendo que ele havia visitado essa fábrica de vinil ai na baixada fluminense, que agora me foge o nome, para acertar os detalhes da produção de seu disco. Papo vai, papo vem, alguma cabeça (não sei se o dono) contou pra ele que quem mantinha a fábrica funcionando, até aquele momento, eram as bandas e selos independentes de heavy metal nacional que nunca cessaram a produção. E isso pouca gente observa.

O que coloquei foi uma perspectiva a mais (se está certa ou errada, quem ler julgará), e não uma análise política ou social.
Mas ainda sim, não discordo de nada que escrevi sobre o fato de que coleção de vinil é sim uma atividade elitista, e que essa elite, que inclusive faço parte, mesmo que em níveis mais sutis em alguns e mais exagerados em outros é: demagoga no discurso, egoista, e hipócrita em não reconhecer isso. Posso estar exagerando na generalização do comentário, mas pelo que observo acredito sim que que isso seja fato.
Isso não é um ataque, mas sim uma opinião e possivelmente uma auto-critica.

Paz meu velho...
e não se cale não.

Juninho

Re: Mais cult do que roots [4]

Saulo,

O que mais me encuca e me intriga dentre as análises socioeconômicas que seu post gerou no Jecabit é a afirmação do Juninho de que os colecionadores, fabricantes e vendedores de vinil são parte da elite e, como tal, são egoístas, mesquinhos e demagógicos. [...] "demagógico" é em geral o atributo de um discurso ou de uma ação (como uma lei), não de pessoas. "Egoísta" e "mesquinho" já são palavras por demais subjetivas e emotivas. Fica difícil saber de que características mais exatamente das elites ele está falando. O que salta aos olhos é o tom ressentido do comentário. Pra mim, particularmente, egoísmo e mesquinhez são atributos essenciais, daquilo que os religiosos chamariam de alma ou espírito individual, e pra mim indicam falta de caráter. O que já leva o debate pra outra seara, muito distante da política ou da economia. Num sistema perverso e malvado, existem classes que são agentes da opressão, ou dela se beneficiam, ou colaboram para a legitimação ideológica do sistema. Mas acusar uma classe social de ser perversa ou malvada é manobra apelativa típica da liderança sindical mais vulgar, diante da platéia mais ignorante possível. A partir dum certo ponto estamos falando de pessoas, não de abstrações. Diferentemente de "pessoas que ganham entre 5 e 20 salários-mínimos" os colecionadores de vinil, por exemplo, constituem um perfil bem mais tangível, são pessoas bem próximas de vocês.

O tipo de discurso do Juninho sempre leva a isso: um sujeito é encaixotado dentro de uma generalização ofensiva, fica puto, e a troca de ideias morre. Por que eu, que sou dono de um sebo, gastaria meu tempo pra debater com um cara que me trata, e aos meus colegas de profissão, de maneira tão desrespeitosa? Porque conheço o Saulo desde que tenho 15 anos, e com ele já me diverti à beça no passado, só por isso. Esse tipo discurso raivoso fica até muito bonito em artistas jovens, cuja genialidade se expressa com a iconoclastia típica de quem está para criar os paradigmas de amanhã. É o caso do Juninho? Espero que sim.

No sebo que administro, estava outro dia discutindo o sistema de cotas com um historiador especializado na Índia (onde nasceu o sistema, quando os ingleses tentaram dar concretude ao sistema de castas, que existia de fato mas não como realidade jurídica). Ele disse num momento que existia um sistema de cotas para brancos nos concursos públicos. Minha resposta foi: "não confunda as coisas. Mesmo que você argumente a existência de estruturas ou fenômenos sociais que produzem um efeito igual ao que produziria um sistema de cotas, ISSO NÃO TORNA VERDADEIRA a afirmação de que existe um sistema de cotas para brancos no Brasil. Não existe, essa é a verdade."

(Aliás, quando alguém começa a duvidar da possibilidade de se distinguir entre verdades e mentiras, aí é mesmo que a conversa leva um tiro na nuca. Quando alguém tenta uma estratégia tão escrota como essa pra esconder sua falta de argumentos eu não brigo mais. Me calo, pico a mula.)

Para quem gosta de metáforas e frases de efeitos, para quem quer fazer drama, a poesia é um campo mais indicado do que a discussão política.

Maurício

17 Outubro, 2009

Re: Mais cult do que roots [3]

Pois é, Juninho, a cena metal é forte e conta com uma legião de seguidores fiéis no Brasil. A banda brasileira mais bem sucedida no mercado da música pop saiu dessa cena... Essa popularidade é compreensível, dadas as condições de vida do país e a temática do heavy metal. O metal também fala de força, uma força para sobreviver em condições adversas. É daí que essa galera tira sua motivação, sua inspiração. Sad but true.