20 outubro, 2010

A fronteira sem portões --- 25

25. A palestra do terceiro assento sobre o Dharma

O venerável Yangshan sonhou que estava na casa de Maitreya[17], tranquilamente sentado no terceiro assento. O monge ancião do primeiro assento com o martelo branco[18] disse, “Hoje aquele do terceiro assento irá falar sobre o Dharma”.
Shan então levantou-se com o martelo branco e disse, “O Dharma da Mahayana[19] está aparte das quatro sentenças e corta as 100 negações. Ouçam com atenção, ouçam com atenção”.

Wumen diz:

Apenas diga, isso foi falar sobre o Dharma ou não falar sobre o Dharma? Ao abrir a boca, se aproxima do erro, se fechar a boca, perde novamente. Sem abrir, sem fechar, 108 mil.

A canção diz:

Dia claro, céu azul,
No meio de um sonho fala de um sonho,
Formas estranhas, formas estranhas,
Engana toda a assembleia.



[17] Maitreya é o sucessor do Buda Sakyamuni como regente da era. Sakyamuni foi regente da era vermelha, Maitreya é o da era branca (presente), segundo algumas tradições. Maitreya é também tido como o Buda do futuro, ou o Buda esperado. Na época da escrita de A fronteira sem portões, Maitreya era invariavelmente considerado futuro, visto que o começo da era branca é recente.
[18] O martelo é usado para soar o sino.
[19] Mahayana é uma das duas grandes divisões do budismo, traduzida por Grande Veículo, a outra escola é a Theravada.

21 setembro, 2010

Herbie Hancock & Céu - Tempo de Amor - Imagine Project

A fronteira sem portões --- 24

24. Abandonar a linguagem

Um monge perguntou ao venerável Fengxue, “Palavra e silêncio permeiam até as menores coisas. Como compreender sem ofender?”. Xue disse, “Sempre me lembro de Jiangnan no terceiro mês, os francolins[1] piam entre centenas de flores perfumadas”.

Wumen diz:

O engenho de Fengxue era tal como se puxasse a eletricidade e assim obtivesse um caminho para andar. Ele discutiu, mas sentou-se na língua ininterrupta dos ancestrais (por usar o verso escrito). Se você puder ver o interior intimamente, terá a estrada em si mesmo. Apenas abandone o samadhi da linguagem e esteja pronto para dizer uma sentença que vier.

A canção diz:

Sem mostrar uma sentença vigorosa,
Ele não foi o primeiro a dizer a parte que foi entregue.
Avançar tagarelando,
Perceba o grande engano do respeitável senhor.



[1] Espécie de pássaro terrestre (Francolinus chinensis).

16 setembro, 2010

jecatron soundsystem, direto do cemitério indígena

jecatron, direto do cemitério


Afim de prepará-los para as fortes emoções da segunda edição do FESTIVAL da MONTANHA, preparamos DOIS esquentas dignos!

Na Sexta-feira 24 de setembro, o Cabana Café se apresenta, e quem bota o som é Fábio Véio, Chico Tripa e Phanton Milk. Do dub ao twee.

No sábado, após o primeiro dia de festival, dirija-se ao "after", em clima infernal da montanha. Pineal SomSistema se apresenta, e o som na pista fica por conta dos convidados: Eduardo Ramos, Molinari (The Name) e Phanton Milk.

Quem ressurge dos confins das profundas covas jécas, é o JECATRON SOUNDSYSTEM, coletivo shuffle, com seus beats cremosos e riffs sacanas!

O Mythos Bar fica atrás da rodoviária de Sto Antônio. No esquema.

So...dance monkeys!

14 setembro, 2010

Toda forma de poder



Rock brasa, cheio de trocadilhos estilo Ifi.



Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada
Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada
E eu começo a achar normal que algum boçal atire bombas na embaixada

Se tudo passa talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu fiz

Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada
Toda forma de conduta se transforma numa luta armada
A história se repete, mas a força deixa a história mal-contada

Se tudo passa talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu fiz

O fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante e fascinada
É tão fácil ir adiante e esquecer que a coisa toda tá errada
Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada

Se tudo passa talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu fiz

10 setembro, 2010

Mombojó 2010



O amadurecimento do pós-manguebit.
Mais limpo, mais dançante, mais coeso.
Mais rock, mais entrosamento, menos instrumentos.
Soul music para alimentar a inspiração dos jécas artistas.
Vai que é aqui mesmo...

Enquanto isso, em 1983...



Mais uma de 1983 que apareceu hoje, depois do disco Enter do Cybotron e do Neuromancer... freak show tecnomedieval canadense. Parece que várias bandas new wave/synth-pop/industriais surgiram no Canadá durante a década perdida. David Cronenberg, o cineasta que explorou a estética homem-máquina freak show também é de lá. Tanto ele quanto William Gibson, autor de Neuromancer, são de Vancouver, onde houve uma cena industrial relevante. Mas os Men Without Hats são de Montreal, a cidade fresca onde falam francês. Hipertexto em loop pra concluir com metalinguagem.

Jécatown é um erro.

Um erro total e completo.

riddim soundsystem get nasty

Mixtape riddim zerozero 4 anos by riddimsoundsystem

Riddim Soundsystem também deu a sua canja do que vai acontecer hoje na ZeroZero, e está bem massa. Do old school dub ao ska, e encaixando até o Beck no caminho. Juicy!

Mentiras industriais

Em 1981 em Detroit, a famigerada capital industrial estadunidense do automóvel (não por acaso berço do morto-vivo cibernético Robocop), Richard Davis, um ex-combatente do Vietnã, sob a alcunha cabalista de “3070”, e seu colega de faculdade Juan Atkins, inspirados por interesses comuns, como as ideias futuristas de Alvin Toffler, teórico da era da informação, autor dos livros Future Shock [Choque do futuro] e The Third Wave [A terceira onda, uma referência à sociedade pós-industrial], iniciaram um grupo pioneiro do electro e da estética afrofuturista. Cybotron está bem na origem do techno. Seu disco Enter foi lançado em 1983, mesmo ano da publicação de Neuromancer, de William Gibson. O duo se desfez logo, e Atkins continuou com seu Model 500 e hoje é aclamado como fundador do techno, juntamente com Derrick May e Kevin Saunderson, com quem tocou nos Belleville Three. Algumas palavras de Atkins extraídas do artigo de Jon Savage “Machine Soul: A History of Techno”:

“Sempre fui um amante da música. Tudo tem um efeito subconsciente no que faço. Nos anos 1970 eu curtia Parliament, Funkadelic; voltando até ’69 eles estavam fazendo discos como Maggot Brain, America Eats Its Young [Cérebro de larva, América come seus jovens]. Mas se você quer saber a razão pela qual isso aconteceu em Detroit, tem de olhar para um DJ chamado Electrifying Mojo: ele tinha cinco horas todas as noites, sem restrições de formato. Foi em seu programa [de rádio] que ouvi Kraftwerk pela primeira vez”. Sobre 3070, Atkins diz: “Ele era muito isolado. Tinha um dos primeiros sequenciadores Roland, um Roland MSK-100. Eu estava por aí quando você tinha de ter um baixista, um guitarrista, um baterista para fazer discos: você tinha todos esses egos voando ao redor, era difícil obter um pensamento consistente. Queria fazer música eletrônica mas pensava que você tinha de ser um programador de computador para fazer isso. Descobri que não era tão complicado quanto pensava. Nosso primeiro disco foi ‘Alleys of Your Mind’ (Becos de sua mente). Ele vendeu cerca de 15 mil cópias na região local”.

Charles Johnson é o nome do dj Electrifying Mojo mencionado por Atkins. Dj no primeiro sentido do termo: um radialista, em seu programa costumava rodar discos inteiros. Ele é citado como uma grande influência na cena de Detroit. Aqui vale incluir também a famosa citação de Derrick May, que diz que o techno é, “assim como Detroit, um erro completo. É como George Clinton e Kraftwerk presos em um elevador”. Uma afirmação bastante lúcida, afinal trata-se de um som claustrofóbico característico de um estilo de vida nada saudável.

Cybotron tem uma canção chamada Techno City, considerada por Savage a que lançou o gênero techno. Atkins dizia que apesar da decadência Detroit estava se reerguendo, e chamava a cidade de Techno City. O projeto do Cybotron era “altamente conceitual”, de acordo com Simon Reynolds, autor de Generation ecstasy: into the world of techno and rave culture [Geração ecstasy: no mundo do techno e da cultura rave]. Richard Davis provavelmente fritou de ácido no Vietnã. Adorava Jimi Hendrix, como muitos naquela época. “Davis havia remendado um estranho credo pessoal a partir de The Third Wave, de Toffler, e do Zohar (a ‘bíblia’ da cabala clássica judaica). A ideia central era que por meio da ‘ligação interfacial da espiritualidade dos seres humanos na matriz cibernética’, você poderia se transformar em uma entidade supra-humana. Alinhado com a numerologia do Zohar, Davis mudou seu nome para 3070".

A divisão de funções aparentemente era bem nítida: enquanto Davis desenvolvia a base de ideias, Atkins estava focado em fechar os discos, em fazer as faixas do Cybotron funcionar como dance music. Eles estavam tão envolvidos no projeto que chegaram a elaborar um vocabulário próprio:

“Sempre estivemos ligados no futurismo. Tínhamos uma série de conceitos para o Cybotron: todo um dicionário de linguagem tecno, uma ideia geral que chamávamos de a Grade (the Grid). Era como um vídeo game no qual você entrava em diferentes níveis” , diz Atkins. “Concebíamos o ambiente como sendo uma Grade de Jogo. Certas imagens em um programa de vídeo são referidas como ‘sprites’, e o Cybotron era considerado um ‘super-sprite’ com poderes extraordinários”.

Veja um vídeo do grupo, Industrial Lies, faixa criada por 3070 que consta no disco Enter:



Industrial Lies

My conservative reactionary friend,
the ends done justify the means you understand,
you take the butter from the table by a gun,
you think the status quo will be there when you're done,
you buy the missile, buy the laser, buy the tank,
evict the widow, put the money in the bank,
you do it all in the name of economics: economics, economics, economics.

Well, it's just industrial lies,
hidden behind your eyes.
Well, it's just industrial lies
hidden behind your eyes

maximise
profitize
exploitation
take what you want, leave the rest behind
take what you want, leave the rest behind

Agradecimentos a Max Polun do blog reality and fantasy, aparentemente o único site a conter a letra na internet: http://realisy.blogspot.com/2008/07/cybotron-lyrics.html



Mentiras industriais

Meu amigo conservador reacionário,
você entende que os fins realizados justificam os meios,
você toma a manteiga da mesa à mão armada,
você pensa que o status quo vai estar lá quando tiver acabado,
você compra o míssil, compra o laser, compra o tanque,
despeja a viúva, põe o dinheiro no banco,
você faz tudo em nome da economia: economia, economia, economia.

Bem, são apenas mentiras industriais,
escondidas atrás dos seus olhos.
Bem, são apenas mentiras industriais,
escondidas atrás dos seus olhos.

maximize
lucre
exploração
pegue o que quiser, deixe o resto para trás
pegue o que quiser, deixe o resto para trás

09 setembro, 2010

A french touch



Pedro "Busy P" Winter, esse é o nome do cara por trás do sucesso de alguns dos melhores djs do mainstream como Daft Punk e o Justice. Dono do selo Ed Banger Records, selo criado quando ainda era manager do Daft Punk, conta com uma gama de djs tipo A, nessa lista se inclui DJ Mehdi, Feadz e Mr. Ozio, Uffie e outros. Vale a pena conferir a mixtape do cara e as criaturas que habitam a Ed Banger Records.

Mixtape Busy P:
BUSY P TSUGI MIXED CD by BUSYP

mais infos:

http://www.edbangerrecords.com
http://www.myspace.com/busyp
http://www.myspace.com/etjusticepourtous
http://www.myspace.com/daftpunk

rockaway gil

Mix tape Juliana Gil - zerozero 4 anos www.zerozero.com.br by djJulianagil

Yes! Rock n roll com Juliana Gil em terras jecas nesta sexta-feira. De Elvis à Ramones,pra saculejar ou bater a cabeça. A ju quebra suas pernas na pista também.
Rola na ZeroZero, sexta dia 10, no Serrinha @ Taubaté.
http://www.zerozero.com.br/

03 setembro, 2010

Jecaradio# Croquete de Praia


MusicPlaylist
Music Playlist at MixPod.com




Feriadão chegando, que beleza!É hora de perder aquele bronze de rato de laboratório que só o seu trampo pode te proporcionar. A trilha sonora vem cheia de hits marotos pra vc dança igual um croquete de praia!

Hasta!

25 agosto, 2010

dj negs on fire

MIXTAPE - DJ NEGS ZEROZERO.15 by eldertiago

Dj Negs da um caldo do que será seu set-list na próxima Zero Zero. Rock + eletrônica, enfim um pouco de coisa muderna pra dançar no interior.

23 agosto, 2010

O último hit jéca



























Esterco atômico
(em referência a 'Maracatu atômico', de J Mautner)

Tomates caquis do tamanho de abóboras
No mercado maçãs brilhantes reluzentes
Além do satélite meteorológico
Estrelas no meio da couve-flor

Na estrada da roça eletrônica o fruto do esterco atômico (x4)

Os legumes superdesenvolvidos
Cultivados com agrotóxicos radioativos
Alimentarão o novo homem de DNA sintético
Criado em laboratório


Esterco atômico by sauloalencastre

http://soundcloud.com/sauloalencastre/estercoatomico

18 agosto, 2010

The Gilbertos - Howl





O uivo.

Jorge Ben - Os Alquimistas Estão Chegando os Alquimistas





Ô ô ô ô...
Ô ô ô ô...
Ô ô ô ô...

Os alquimistas estão chegando
Estão chegando os alquimistas
Os alquimistas estão chegando
Estão chegando os alquimistas

Ô ô ô ô...
Ô ô ô ô...

Ê ê ê ê
Ê ê ê ê

Eles são discretos e silenciosos
Moram bem longe dos homens
Escolhem com carinho a hora
e o tempo do seu precioso trabalho
São pacientes, assíduos e perseverantes

Executam, segundo as regras herméticas
Desde da trituração, a fixação,
a destilação e a coagulação

Trazem consigo cadinhos
Vasos de vidro, potes de louça
Todos bem iluminados

Evitam qualquer relação com pessoas
de temperamento sórdido
de temperamento sórdido

Ê ê ê ê
Ê ê ê ê

Os alquimistas estão chegando
Estão chegando os alquimistas
Os alquimistas estão chegando
Estão chegando os alquimistas

Ô ô ô ô...
Ô ô ô ô...
Ô ô ô ô...

17 agosto, 2010

A fronteira sem portões --- 23

23. Não pense em bem e mal

O sexto patriarca foi seguido pelo monge Ming do assento superior até o monte Daiyu. O patriarca, ao ver Ming se aproximar, colocou o manto e a tigela do legado sobre uma pedra e disse, “Este manto representa a fé. Deve ser disputado pela força? Se quer levá-lo, pode pegar”. Ming tentou levantar o manto, mas, como uma montanha, ele não se moveu. Hesitante e amedrontado, Ming disse, “Eu vim buscando o Dharma, não o manto! Espero que o senhor esteja aberto a ensinar”. O patriarca disse, “Não pensando em bem, não pensando em mal, diga diretamente, nesse momento quais são as verdadeiras feições do monge Ming do assento superior?”. Ming imediatamente teve uma grande percepção, e suor cobriu todo seu corpo. Chorando, prostrou-se e perguntou, “Além dessas palavras e significados secretos, não há mais algum propósito?”. O patriarca disse, “O que agora lhe digo ou a outros imediatamente não é secreto! Se você voltar a iluminar suas próprias feições, verá que o secreto está dentro de seus próprios limites”.
Ming disse, “Declaro que, mesmo estando na assembleia que seguia Huangmei, não havia examinado realmente minhas próprias feições. Agora, ao receber essa instrução apontada, sou como o homem que bebe água e sabe por si se é quente ou fria. Agora estou certo de que você é meu mestre”. O patriarca disse, “Você supõe isso, contudo eu junto com você temos o mesmo mestre, Huangmei. Para aperfeiçoar o que você obteve, proteja e sustente-o”.

Wumen diz:

Poderia-se dizer que o sexto patriarca exercia sua função como uma esposa ansiosa a quem seu coração corresponde. Por exemplo, como pegar uma lichia fresca, descascá-la, tirar o caroço, e colocá-la dentro de sua boca. Você apenas engole de uma vez.

A canção diz:

Não pode ser copiado, não pode ser desenhado,
Louvar não o alcança, não o receba cru.
As verdadeiras feições não têm lugar para serem guardadas,
No tempo em que o mundo for destruído, o canal é imortal.

25 julho, 2010

John Cage - 4'33" by David Tudor



Provavelmente a peça mais conhecida --- e polêmica --- do século passado, em sua estreia na interpretação do pianista David Tudor, intimamente envolvido com a escola de Nova Iorque.

20 julho, 2010

The BellRays - "Infection"

A fronteira sem portões --- 22

22. O poste do templo de Kasyapa

Ananda perguntou a Kasyapa, “O Buda transmitiu-lhe o manto dourado, além disso o que foi transmitido?”.
Kasyapa disse, chamando, “Ananda!”.
Ananda respondeu, “Sim, senhor!”.
Kasyapa disse, “Vire-se e renuncie ao poste no portão da frente do templo”.

Wumen diz:

Se de dentro puder expressar uma palavra de mudança, então verá intimamente toda a assembléia solene do monte Grdhrakuta como se não tivesse sido desfeita. Talvez não consiga; o Buda Vipasyin tem sido consciente desde eras antigas até o presente e ainda não atingiu o sublime.

A canção diz:

Qual foi mais profunda – a pergunta ou a resposta?
Poucas pessoas nesta época refletiram sobre isso.
O irmão mais velho chama, o mais novo responde, levantando a vergonha da família,
Uma primavera diferente, não pertencente a yin e yang.

22 junho, 2010

A fronteira sem portões --- 21

21. A varinha de remover estrume de Yunmen

Um monge perguntou a Yunmen, “O que é o Buda?”.
Men disse, “Uma varinha de remover estrume seco”.

Wumen diz:

Pode-se dizer que Yunmen vem de família pobre, tem dificuldade em distinguir a comida vegetariana, está ocupado demais e não escreve apropriadamente. Ele manteve o portão aberto e escorou as portas com uma varinha de remover estrume. É visível o declínio da doutrina budista.

A canção diz:

Um raio brilha,
Batendo a pedra acende,
Em um piscar de olhos,
Já passou e se perdeu.

04 junho, 2010

Além das fronteiras dos jardins da razão

Indo além das fronteiras dos jardins da razão... passamos pela imaginação, chegamos na realidade. Você está lendo essas letras transmitidas por códigos binários que processados emitem impressões luminosas na retina, ativando conexões neuronais por impulsos elétricos cerebrais que, interpretados, lhe fazem apreender algum sentido nas palavras. À sua volta, ondas sonoras movimentam os ossículos dentro de seu ouvido, movimentando seus tímpanos, que geram eletricidade, transmitida por vias neuronais e interpretada como som. Um vento agradável entra pela janela ao meio-dia de uma sexta-feira ensolarada. Uma caminhonete parte na rua, levando um carro sucateado por uma colisão destruidora. No rádio do vizinho, reggae pop. Aqui é Jécatown.

01 junho, 2010

Aproveite mais a vida!


"Mas se você não tem emprego enão está fumando maconha, não sei que caralho está fazendo da vida"
Muito bom!

25 maio, 2010

Manifesto vorticoso jéca

Raízes. Deserto purulento. Café caqui viralata carroça trem de carga. Marginalidade tendências ultracontinentais teatralidade social identitária. Desistência imperante sobre a sucata e a terra. O passado e o futuro confluem ao ponto único do presente como toda a matéria engolida pelo vórtice estelar astronomicamente distante. Tranquilidade e violência contrastantes nas ruas estreitas ainda cercadas pela zona rural sobrevivente pontuada por indústrias do capital internacional. Máquinas carros telefones cancerígenos de bolso telas luminosas no velho oeste cortado pela sessentenária avenida principal da projetada megalópole não acontecida do hemisfério sul. Tranquilidade e violência contrastantes nas ruas estreitas ainda cercadas pela zona rural sobrevivente pontuada por indústrias do capital internacional. O passado e o futuro confluem ao ponto único do presente como toda a matéria engolida pelo vórtice estelar astronomicamente distante. Desistência imperante sobre a sucata e a terra. Marginalidade tendências ultracontinentais teatralidade social identitária. Café caqui viralata carroça trem de carga. Deserto purulento. Raízes.

A fronteira sem portões --- 20

20. O homem de grande força

O venerável Songyuan disse, “Por que razão o homem de grande força não levanta seus pés?”. Ele também disse, “Abrir a boca para falar não depende de subir a língua”.

Wumen diz:

Pode-se dizer que Songyuan põe seus intestinos e estômago para fora, mas ninguém carrega. Mesmo se alguém começar carregar, é bom que venha até Wumen para ser golpeado com o porrete. Por que? Para conhecer o verdadeiro ouro, deve-se olhá-lo dentro do fogo.

A canção diz:

Levantando os pés atravessa o Oceano Perfumado,
Baixando a cabeça observa o quarto céu de Chan.
Não há lugar vasto o suficiente para seu corpo,
Peço que continue este verso.

28 abril, 2010

A fronteira sem portões --- 19

19. Ordinário é o Caminho

Zhaozhou perguntou ao venerável Nanquan, “O que é o Caminho?”.
Quan disse, “A mente ordinária é o Caminho”.
Zhou disse, “Não se pode voltar à sua direção?”.
Quan disse, “Tentar voltar-se à sua direção já é contraditório”.
Zhou disse, “Não tentar se esforçar é conhecer o Caminho?”.
Quan disse, “O Caminho não pertence ao saber nem ao não-saber. Saber é delusão, não-saber é esquecimento. Se realmente sem intenção alcançar o Caminho, o perceberá extenso como o grande vazio, como um buraco aberto. Como poderia-se forçar isso a se encaixar também na disputa do certo e do errado?”.
Ao ouvir essas palavras, Zhou imediatamente teve uma percepção.

Wumen diz:

Nanquan usou as perguntas de Zhaozhou para derreter o gelo, eliminar a diferenciação e a dispersão, sem deixar nada embaixo. Mesmo obtendo uma percepção rica, ainda precisava de mais 30 anos para poder começar.

A canção diz:

A primavera tem 100 flores, o outono tem a Lua,
O verão tem a brisa, o inverno tem a neve.
Se assuntos inúteis não preocuparem sua mente,
Então o mundo dos homens é uma boa estação.

08 abril, 2010

pixel attack!


PIXELS by PATRICK JEAN.
Enviado por onemoreprod. - Videos Independentes

by PATRICK JEAN

marmitexas, com riddim SS em jecatown



Riddim SS, novo soundsystem jeca atacando agora na nova festa Marmitex, acompanhados do Negative Mantras (white dub noise) e sin ayuda...projeto novo low-fi.
Rola no novo covil jeca, o bee bop que eu to louco pra conhecer.
Baladinha de domingo pra ninguem botar defeito.

JUICY.

24 março, 2010

A fronteira sem portões --- 18

18. Os três jin[15] de Dongshan

Um monge perguntou ao venerável Dongshan, “O que é o Buda?”.
Dongshan respondeu, “três jin de linho”.

Wumen diz:

O velho Dongshan tinha o Chan (Zen) de um mexilhão. Ele abriu as duas metades da concha e expôs suas entranhas. Mesmo se for assim, apenas diga, em qual direção vê-se Dongshan?

A canção diz:

Três jin de linho foram mostrados,
As palavras eram íntimas, a idéia era ainda mais íntima.
Pessoas que falam sobre a disputa do certo e do errado
São pessoas que pertencem à disputa do certo e do errado.

[15] Medida de peso equivalente a aproximadamente 0,5kg.

25 fevereiro, 2010

A fronteira sem portões --- 17

17. O professor nacional chama três vezes

O professor nacional chamou seu assistente três vezes. O assistente respondeu três vezes. O professor nacional disse, “Ia dizer que eu lhe desapontava; quando você veio, contudo, foi você quem me desapontou”.

Wumen diz:

O professor nacional chamou três vezes, e sua língua caiu no chão. O assistente respondeu três vezes, e emitiu a luz da harmonia. O professor nacional estava velho e seu coração solitário, ele segurava a cabeça do boi abaixada para que comesse grama. O assistente não concordou em carregar o fardo. Comidas deliciosas não despertam o desejo em uma pessoa saciada. Apenas diga, neste caso em que ponto ele se desapontou? Em um país esclarecido, os estudiosos são tidos em alto valor. Em famílias ricas as crianças são mimadas.

A canção diz:

Uma pessoa importante carregava uma canga de ferro[14] sem buraco para a cabeça,
Envolvendo filhos e netos que não pertencem às classes desocupadas.
Se quiser manter o portão aberto e escorar as portas,
Então precisa subir descalço uma montanha de facas.

[14] Junta levada nos ombros, fechada no pescoço e braços, usada no passado para punir prisioneiros na China.

09 fevereiro, 2010

Filme para ver

Galera, meu primeiro post aqui no jécabit, como nao sei o que dizer...vou na velha tática de guerra e deixar uma dica de filme...será que alguem já falou desse filme por aqui??? rsrs, espero que não...

Bom, esse filme foi uma dica de uma amiga do rio...ela sempre me da boas dicas de filmes e bandas, achei muito legal o filme rs, o filme se chama: 500 days of Summer

...procurem no bitorrent que vcs acham facin facin.

è bem interessante, uma boa trilha sonora, boa história e roteiro, ganhou prêmios, é sobre relacionamentos e o melhor que não é um filme feliz...rs....gosto disso.

abraço a todos.

01 fevereiro, 2010

A fronteira sem portões --- 16

16. Soa o sino, sete faixas

Yunmen disse, “O mundo é tão vasto, por que você veste seu manto de sete faixas ao soar do sino?”.

Wumen diz:

Geralmente, ao se adentrar no Caminho do estudo do Chan, deve-se evitar de todos os modos acompanhar os sons e seguir as formas. Mesmo que ao ouvir um som perceba o Caminho ou ao ver uma forma a mente brilhe, estes ainda são ordinários. Pouco imaginando, o monge com a vestimenta da casa[13] cavalga os sons e controla as formas, vê a natureza das coisas e as atividades da mente com clareza. O topo da cabeça é superior à compreensão, a aparência é superior ao maravilhoso. Contudo, mesmo se for assim, apenas diga: o som vem até a orelha ou a orelha vai em direção ao som?
Abandone barulho e silêncio, esqueça ambos. Ao alcançar isso, como falar de união? Se levar a orelha a concordar com a audição será difícil unir. Quando conseguir ouvir com o olho, então começará a estar íntimo.

A canção diz:

Juntando os critérios, os assuntos são os mesmos como uma casa,
Não juntando, dez mil distinções, mil diferenças e erros.
Não juntando, os assuntos são os mesmos como uma casa,
Juntando os critérios, dez mil distinções, mil diferenças e erros.

[13] A casa de estudo de que participa, escola, linhagem.

08 janeiro, 2010

A hora do ao moço...



Estou trabalhando em uma nova publicação que tem como foco histórias sobre homossexuais, se você tem algum quadrinho, conto ou ilustração com esse tema e se interessa em participar deste projeto, envie para terriotiromarginal@gmail.com

29 dezembro, 2009

A fronteira sem portões --- 15

15. Os três açoites de Dongshan

Dongshan foi se entrevistar com Yunmen, que lhe perguntou, “De que lugar você vem?”.
Shan disse, “Chadu”.
Men perguntou, “Em que lugar esteve no verão?”.
Shan disse, “No monastério de Baoci, na província de Hunan”.
Men disse, “Quando você saiu de lá?”.
Shan disse, “No dia 25 do oitavo mês”.
Men disse, “Eu lhe poupo de três açoites com o bastão”.
No dia seguinte Dongshan voltou a subir e perguntou, “Ontem recebi do venerável o perdão de três açoites com o bastão. Não entendo, por que lugar deveria passar?”.
Men disse, “Seu saco de arroz cozido, o que o faz vaguear pelas províncias de Jiangxi e de Hunan?”. Nisto Shan teve uma grande percepção.

Wumen diz:

Naquele momento, Yunmen deu o genuíno alimento que cabia a Dongshan, o fez distinguir a existência do caminho único da vida, não o deixou sozinho na casa de Men. Por toda a noite Shan esteve no oceano da disputa do certo e errado. Não chegou a lugar algum, até a alvorada. Novamente ele perdeu sua concentração. Dongshan então foi direto e teve a percepção, sua natureza não era tão árida. Agora eu pergunto a todos, Dongshan merecia os três açoites com o porrete ou não? Se disser que merecia, então toda a selva de grama e árvores também merece o açoite com o porrete. Se disser que não merecia, sucede que Yunmen estava mentindo. Se clarear dentro de si, se juntará a Dongshan em uma respiração.

A canção diz:

A leoa ensinava ao filhote truques fascinantes,
Tentando pular para frente hesitou e tropeçou;
Sem parar ali, falou novamente e conseguiu.
A primeira flechada foi suave, mas a seguinte foi profunda.

17 dezembro, 2009

O último Jecatron Soundsystem

flyer-pro-blog

O Jecatron Soundsystem encerra suas atividades permanentemente. Agradecemos a todos pelos excelentes anos e noites incomparáveis.

A última e bombástica festa de adeus jecatrônica vem que vem pra destruir tudo e pôr um fim à lenda com chave de ouro, incluindo uma apresentação especial da banda de white dub noise Negative Mantras. Fogo na pista. Lembrem-se (parafraseando Neil Young): é melhor exaurir-se queimando em uma explosão do que lentamente desaparecer no esquecimento. Se joga!

Local: Jardim Cultural
Av. Domingues Ribas, 345. Chácara do Visconde. Taubaté - SP
(próximo ao Supermercado Vilela)
Entrada: FREE > leve sua bebida.

16 dezembro, 2009

Zion High!

Summerstage Reggae Festival

No próximo sábado acontece em Pindamonhangaba o último evento, organizado pela banda A Tropa, do ano. A banda que já trouxe nomes como B Negão em outras edições, convida agora para o Vale do Paraíba o Deejay jamaicano Ranking Joe, em nova turnê ao lado do Digitaldubs Soundsystem representando. Dentre as atrações aqui da terrinha, quem aparece pra animar a pista é o Jecatron Soundsystem e o George Soundsystem num ambiente propício para a brisa numa tenda ao lado do rio. O local é sensacional, no Eco Bar. Fica em Pindamonhangaba, na estrada que vai para a fazenda Hare Krishna. A estrutura é muito bacana, as atrações tão muito foda. Perfeito para reunir os fellas uma ultima vez antes do reveion.


Ranking Joe & Digitaldubs SS / A Tropa / Jecatron Soundsystem / George Soundsystem / Riddim / Dj Gabriel Teixeira

19/12/09 - 23h – Eco Bar

Maiores informações no site da tropa

10 dezembro, 2009

cry me a river [joe cocker and the mad dogs]



Rara apresentação de "cry me a river" por Joe Cocker & Mad Dogs com Englishmen.

Domingo agora

Enquanto isso, numa pacata cidade pós-caipira industrializada de terceiro mundo detentora de prisioneiros de segurança máxima, altos índices de consumo de drogas, violência bruta e carros per capita em ruas estreitas, adolescentes com poucas referências culturais e muita vontade tentam agitar a cena como podem...






hell day

trashcore + verdurada + skate + zines + molecada















(o jécablog não se responsabiliza por eventuais níveis de ruído prejudiciais à saúde)

Dancefloor Grooves



Jecatron Soundsystem + Funkessencia

Acontece nessa sexta-feira, dia 11 de dezembro, provavelmente a última apresentação do Jecatron Soundsystem em São Paulo.

Mais uma vez a convite dos talentosos groove-mans do sensacional Funkessencia.

O pico é beem firmeza. A banda é sensacional. E o swing é contagiante, hehehe.

R$ 10 com nome na lista.
www.funkessencia.com.br
www.idch.art.br
11-2538.0554

06 dezembro, 2009

Poesia Excluída

Quando eu era bem pequeno,
Do poema bom diziam:
“Tem que ter um tom moreno!”
- Pois o negro não queriam.

“A palavra é sempre amena.
Pra fazer soar poesia,
Tem que ter beleza plena.”
- Nela, o torto não se ouvia.

E falavam muito mais:
“Não se deve usar palavra
Como Judas, Caifaz;
E bebum não faz boa lavra.

E na trova não se fala
Desse espinho qu’inda crava
Em nossa pele que se cala
Pois, se não, a trova trava.”

Mas então não há saída?
- lhes pergunto agora -
Há poesia excluída?
Rima torta não tem hora?

Como palavras proibidas,
Nós faremos, sem demora,
Muitas trovas escondidas.
Alguém quer ficar de fora?

29 novembro, 2009

O disco: forma de arte contemporânea ou peça de marketing da indústria cultural?

No século XX o desenvolvimento tecnológico possibilitou a gravação dos sons, o que mudou radicalmente a maneira como as pessoas ouvem música. Até então, a música só era ouvida quando tocada ao vivo. Desenvolveram-se os meios de transmissão de som, telefonia, rádio, o disco começou a ser comercializado e logo as gravações se popularizaram. Houve compositores de música séria, por assim dizer, que a experimentaram com as possibilidades inovadoras de manipulação dos sons trazidas com as gravações. Na música pop, surgiram álbuns conceituais. Há algo de artístico na ordenação das canções contidas em um disco, no seu conjunto como um todo, como na compilação de poemas em um livro. Mas o disco pode ser encarado também como simplesmente um instrumento de divulgação de um músico ou banda. Afinal, somente quando executada ao vivo a música é realmente viva. A gravação, por mais bem feita e mixada que seja, é um registro que acaba abafando a execução. É música enlatada, emprestando a declaração de Cage. Mas a discussão não se limita aí. Pode-se estender a comparação às artes visuais, por exemplo. Uma fotografia e uma pintura obviamente não são a paisagem em si, mas um registro ou representação dela, e nem por isso deixam de muitas vezes serem consideradas arte. De qualquer jeito, já vivemos a tal ponto em um mundo de simulacro que a própria relevância de uma consideração desse tipo é discutível.

28 novembro, 2009

eu não sou autoridade para a morte

w_pinesapam-jeca
Esse é o personagem da minha próxima publicação, que tem me dado algumas insônias delirantes nos últimos dias... Tem mais em Território Marginal.

25 novembro, 2009

Verborragia marginal: Crack e filosofia cristã na periferia do mundo industrializado

Guido Campos, 26 anos, taubateano, viveu a adolescência em um bairro pobre, São Gonçalo. Ali teve seus primeiros contatos com o rap. Imergiu ativamente na cultura hip hop de 1995 a 2005, tendo fundado grupos como Ponto 50 e Na Mira do Rap. Realizou trabalhos sociais na comunidade por seis anos, conheceu as drogas e, depois de passar por experiências devastadoras com o crack, decidiu lutar pela consciência do menos favorecido. Hoje busca se firmar como escritor de literatura marginal, vem participando de saraus, festivais de literatura e expondo seus trabalhos em eventos culturais locais. Alguns de seus escritos podem ser lidos em seu blog pessoal <http://www.guidocampos.blogspot.com> e no site <http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=13890>.

Livros escritos:

4+1 drogas e poesias
A cidade de Livertow
Lendas urbanas

Jecablog: Defina arte.
Guido Campos: Eu defino arte como expressão da alma, algo que emerge do ser humano chegando a ser transcendental, acredito que seja a fala entre a alma e o corpo.
Jb: Você acredita em uma separação da alma e do corpo?
GC: Não, por mais que na primeira pergunta a resposta mostre um dualismo, não acredito, acredito que somos um todo. Até podemos melhorar a primeira colocando que a arte seria a fala entre a alma interna com a alma externa.
Jb: Um diálogo.
GC: Sim, podemos dizer que sim.
Jb: Mas então o que você chama de alma interna e externa?
GC: Duas pessoas. O eu interior interagindo com o seu EU, que para mim é exterior.
Jb: Você está dizendo que a arte só existe na relação com o espectador?
GC: De forma alguma. A arte surge no indivíduo, mas ele sente necessidade de expor, de transmitir isso, talvez por uma força maior que ele mesmo nem saiba explicar, ela por si só emerge. A arte não é estática.
Jb: E o que você está chamando de alma interior e alma exterior, e o diálogo entre elas, então?
GC: acredito que o que chamo de alma interior é quando quero falar da pessoa como um todo, e muitas vezes a arte se torna esta ponte, sabe, entre um e outro.
Jb: Um meio de comunicação?
GC: Sim, claro. Uma ferramenta a mais que o ser tem para se comunicar.
Jb: Então para você arte é somente um meio de comunicação?
GC: Não somente, isso seria esterilizar a arte. A arte é também expressão do ser, não só uma comunicação entre os seres, mas também é uma comunicação entre o ser e o mundo e principalmente com ele mesmo. Fala-se através da pintura, da dança, fala-se através da música, eu falo muitas vezes através da poesia, dos meus pensamentos escritos. Eu falo através de um conto.
Jb: Então também é uma ferramenta de autoconhecimento.
GC: Podemos dizer que a arte é uma ramificação da vida. [pensa] É a vida sendo contada de diversas formas. Por ser ramificação da vida, dentro dela temos a essência do TODO, algo divino e que se expressa num ser, porque ela só é vista através do artista ou de um olho artístico.
Jb: Então você relaciona a percepção artística a algo divino?
GC: Sim, claro, acredito que vem de um ser maior esta força ou forma de comunicação. A inspiração é algo espiritual, ao meu ver.
Jb: Qual a diferença entre escrever rap e escrever "literatura"?
GC: É muito diferente. Quando escrevo rap, já tenho um público-alvo [definido]. Por mais que música seja universal, dentro deste universo temos estilos e denominações, as letras são focadas para esse público, têm um cunho social pesado. Agora quando faço literatura e julgo meu trabalho como trabalho literário, acredito eu que a cobrança é maior. Estou escrevendo para pessoas que gostam de ler, que vão interagir com aquilo, vão conversar com o autor, irão questionar. Acredito que é diferente a forma que o autor se comporta com seu trabalho para dois públicos distintos.
Jb: Por que no caso do rap as pessoas não iriam interagir, conversar com, ou questionar o autor?
GC: Acredito que no rap o público massa não se preoculpa tanto em procurar saber o por que quelas palavras estão sendo escritas ou cantadas, não digo todos, existe um público pequeno do rap que faz isso, mas a maioria está ali para dançar no ritmo da batida e se dizer parte daquele clã.
Jb: Certo. Aí a gente volta à relação da arte com o espectador, ao seu aspecto comunicativo.
GC: Acredito que o artista fala e fala muito, o problema está no ouvinte. No rap são poucos os que valorizam o que o artista está dizendo. Se existe esta relação entre arte e espectador, acredito que esteja bem pobre tudo isso.
Jb: Se arte é comunicação, essa relação é pré-requisito.
GC: Não necessariamente. Posso me comunicar sem ser escutado, o outro não me anula.
Jb: Há uma pergunta antiga que diz: Se uma árvore cai no meio da floresta, e ninguém está lá para ouvir, ela fez mesmo barulho?
GC: Legal essa pergunta. Sim, acredito que ela fez. O fato de não ter ninguem para ouvir a queda dela não anula o ato.
Jb: Mas então você acha que é necessária uma percepção, uma consciência "artística", por assim dizer, da parte tanto do artista quanto do espectador?
GC: Tem um poeta taubateano, Claudio Pena, que diz a arte é algo inútil.
Jb: Acho que ele é gaúcho.
GC: Risos
Jb: Você mencionou que muitos no rap estão lá na cena para sentirem-se parte de um clã.
Isso me remete à função tribal dos primórdios da arte.
GC: Sim.
Jb: Nas cavernas.
GC: Hum.
Jb: Nos rituais. O que teria relação com o tal caráter divino mencionado.
GC: Como assim, Saulo? [pensa] Talvez a música seria a relação. A dança.
Jb: Sim. Mas também os desenhos, que são os ancestrais da escrita.
GC: Claro.
Jb: Os símbolos. E também as histórias contadas oralmente.
GC: Sim, a tradição do diálogo nasce através dos contos contados.
Jb: Pois é.
GC: Da história do povo.
Jb: Outra função que se associa à arte primitiva é incitar os espíritos à guerra e à caça.
GC: Sim, claro, acho por isso que ela é uma ramificação da vida, pois em tudo a encontramos.
Jb: O que você pensa do crack como fonte de inspiração?
GC: Acho que não tem nada a ver com fonte de inspiração, acho que o crack é a fonte da perdição. Risos
Jb: E a arte da perdição?
GC: Temos este poder, do trágico extrair arte.
Jb: Nesse sentido arte não é apenas algo divino.
GC: Meio William Blake, né? Ela habita os dois universos.
Jb: Ele procura reconciliar corpo e alma.
GC: Inferno com o céu.
Jb: O que você acha que leva as pessoas a fazerem uso de sedativos e substâncias que alteram a percepção da realidade?
GC: Hoje vejo que está ligado a uma fuga dos sentimentos, sabe? Uma falta de habilidade para lidar com alguns sentimentos, frustrações, aceitação, essas coisas. Fora isso temos a questão social, e essa aborda outros tópicos, cultura, pobreza, essas coisas. Acho que cada caso é um caso e precisa se ver o porquê, sabe?
Jb: Mas também é possível generalizar.
GC: Não sei, não. Generalizar sempre é perigoso.
Jb: Você conhece o livro Admirável mundo novo?
GC: Não.
Jb: Em Admirável mundo novo, Aldous Huxley descreve um mundo no qual a sociedade é toda controlada e estratificada, os nascimentos das crianças são todos feitos em laboratório, e as pessoas vivem em um ambiente como de fábricas, submetidas a uma ordem imposta, inclusive com referências nominais a Ford. Tudo é organizado em função da produção, estilo linha de montagem. Para manter as pessoas sob controle, o governo fornece soma, uma droga para as pessoas.
GC: Retrata bem o mundo atual. Na verdade é vantajoso para a elite dominadora ter pessoas dopadas e anestesiadas de tudo, que se tornam escravos deles de uma forma ou de outra. Por mais que a droga tenha o poder de anular a pessoa como produtiva na sociedade, ela também tem o poder de calar o talento que esta pessoa pode ter.
Jb: Na Antiguidade, os romanos ofereciam o pão e o circo. Hoje em dia, a televisão e a mídia mantém um suprimento constante de estímulos sensoriais para a população, igrejas evangélicas pipocam em grande número oferecendo a salvação, e o comércio de drogas (tanto do narcotráfico quanto da indústria farmacêutica, de bebidas e tabagista) abastece grandes massas mundialmente.
GC: Sim, poder paralelo.
Jb: Paralelo ao governo oficial, você diz?
GC: Sim.
Jb: Na Idade Média a Igreja detinha o monopólio da verdade e da fé na Europa e mantinha a população sob controle utilizando-se de símbolos sagrados e rituais.
GC: Onde você quer chegar?
Jb: Você acha que a civilização, conforme foi sendo criada pelo homem, o fez afastar-se da natureza e de si mesmo, criando uma necessidade de recorrer a anestésicos a fim de aliviar o contato com a realidade, para que o homem se mantenha afastado de si mesmo, de seu potencial mais sublime, e da natureza?
GC: Acredito que na verdade antes tinham a ideia de se dopar para transcender, era uma forma de transcender, mas depois a indústria, o homem moderno, viu que também dava para ganhar dinheiro com isso, acho que a evolução trouxe isso, o homem é curioso, e tem um ditado que diz a curiosidade matou o gato.
Jb: Você acha que a civilização é fruto da curiosidade?
GC: Acho que a civilização é fruto da evolução, e esta surgiu através de um olhar curioso.
Jb: Desenvolva isso.
GC: Acho que o homem quando morava em árvores teve curiosidade de descer delas e ver o que o sustentava, e desceu, ganhou outra forma de visão. Isso lhe deu capacidade de raciocínio, uma vez que seu cérebro se posicionou de outra forma e daí foi...
Jb: Muito interessante, talvez metaforicamente...
GC: Então agora a pergunta é: será que descemos realmente das árvores?
Jb: Essa hipótese do homem morar nas árvores não implica em que ele nunca pisasse no chão.
GC: Falo no sentido da arrogância do homem, sabe? Eu apenas fiz uma metáfora.
Jb: É, mas depois que o homem desceu da árvore dizem que foi para as cavernas, e também andava em bandos, em tribos...
GC: A sociedade nasce assim.
Jb: E colhia os alimentos na floresta, o que a natureza oferecia para ele.
GC: Depois veio o estoque.
Jb: Exato.
GC: E depois a troca...
Jb: Mas antes do estoque, houve uma tentativa de controlar o ambiente para que produzisse o alimento.
GC: Hum.
Jb: A necessidade de controle externo origina-se da negação do presente eterno, do medo, da ansiedade, e da ânsia por conforto e facilidades. Que acha disso?
GC: Acredito que está certo, o controle traz para o homem um sentimento de divindade, e isto o homem busca desde os primórdios, busca entender o universo, a criação de Deus. É a busca pelo entendimento de DEUS, saca?
Jb: O controle seria talvez o fruto da árvore do conhecimento. Cuja ingestão levou metaforicamente à queda.
GC: Sim, claro, existe essa briga.
Jb: Que briga?
GC: Pela busca do poder. Tem o lado do conhecimento. Existe aquela frase, acho que nasceu no positivismo, "conhecimento é poder".
Jb: Poder e controle sobre o ambiente externo. Essa é do Francis Bacon.
GC: Hum. Onde chegamos até aqui?
Jb: Coloco essa associação da metáfora da ingestão do fruto da árvore do conhecimento com o controle sobre o ambiente externo pois ambos representam a negação do que simplesmente é oferecido ao homem. Antes, no Paraíso, o homem não tinha que trabalhar, comia o que a natureza oferecia. Depois, com a agricultura, é necessário trabalhar pelo sustento.
GC: Sim...
Jb: Você acha que os chamados anestésicos visam, de maneira geral, suprimir os medos e os impulsos primordiais do homem?
GC: Acho que o objetivo é anular o homem como um todo.
Jb: E mantê-lo afastado de si e imerso na loucura.
GC: Sim, claro. O homem que não se introduz, não se questiona, está morto espiritualmente.
Jb: Como assim não se introduz?
GC: Não faz uma reflexão sobre si mesmo.
Jb: Então toda a construção social em que vivemos é essencialmente fundamentada na loucura?
GC: Não sei dizer se é, o que sei dizer é que hoje viver é uma loucura.
Jb: De que forma seus estudos teológicos se relacionam com a sua produção escrita?
GC: Quando vou escrever algo que esteja relacionado a espiritualidade, hoje tenho maturidade para distinguir bem o que é céu e o que é inferno.
Jb: Quer dizer que você experimentou o fruto da árvore do conhecimento?
GC: Acho que fazer literatura marginal tem tudo a haver com teologia, sabe? Teologia pode estar classificada como ciência, mas antes de mais nada é algo que nasce do povo, da ânsia de entender o DIVINO, e muitas vezes isso é marginalizado numa passeata num dia santo, sabe? E por aí vai, falar do cotidiano e do humano me fascina, por isso tenho em mãos um arsenal pesado, que exige responsabilidade. Porque quem faz a história não é Jesus, e sim o povo que fala dele, então eu tenho a missão de contar sobre os que fazem a história, o POVO.

24 novembro, 2009

A fronteira sem portões --- 14

14. Nanquan decapita o gato

O venerável Nanquan, como viu as salas leste e oeste discutindo por causa de um gato, pegou-o e disse, “Se a grande assembleia for capaz de falar rapidamente, o gato pode ser salvo, mas se não for capaz de falar rapidamente, então ele será eliminado por decapitação”. Ninguém da assembleia respondeu, então Quan executou a decapitação. À noite Zhaozhou voltou, vindo de fora do templo. Quan contou-lhe sobre o incidente. Zhou tirou suas sandálias, tranquilamente colocou-as sobre a cabeça e saiu. Quan disse, “Se você tivesse estado lá teria salvado o gato”.

Wumen diz:

Apenas diga, qual é o significado de Zhaozhou colocar suas sandálias em cima da cabeça? Se para dentro puder dizer uma palavra de mudança, então verá que o decreto de Nanquan não foi um ato vão, e nesse caso talvez ele não seja perigoso.

A canção diz:

Se Zhaouzhou estivesse lá,
Teria virado o decreto ao contrário,
Tomando e removendo a lâmina,
Deixaria Nanquan implorando por sua vida.
INENARRÁVEL foi o lançamento do álbum de quadrinhos 7Dayz, no final da tarde daquela quarta-feira, 18 de novembro, no curso de arquitetura e urbanismo da UFC. Por isso mesmo, nada melhor que imagens que falam por si, veja você mesmo! Acompanhe também o podcast da entrevista realizada pelo site www.armagem.com
Para adquirir o seu acesse: http://quadrinhos7dayz.blogspot.com/

20 novembro, 2009

12 novembro, 2009

Jecaradio - uma antena parabólica enfiada na roça


MusicPlaylist
Music Playlist at MixPod.com



Cada som aí tem um porque...hehehe
-esse primeiro mash up é pq é bacana, mistura tres sons foda
-essa do LCD é pq é foda!hahahaha...
-beatles pq é beatles,rs...mas eu canto esse som muito pra mim as vezes
-gimme danger foi pelo show q rolou sábado...no show de 2006 ele não tocou nenhuma do raw power. esse show foi bem mais foda!
-shoot speed o primal tocou sábado tbm e foi muito animal
-essa do sonic no show de sábado...uma das melhores...chovendo...a kim doidona dançando...lembrava a nico!!?
-stop! do janes addiction...foi no mesmo dia do planeta terra...tive de escolher...espero q volte um dia
-e essa é top five do ac/dc na minha opnião. seria muito massa se eles tocassem ao vivo. isso. ao vivo. finalmente verei ac/dc..antes q eles morram.

espero q gostem.

Feijoada Polifônica

04 novembro, 2009

O jéca e o tinhoso

Vinha o jéca voltando de um fim de tarde infrutífero de mãos abanando sem ter pego nem lambari naquele córrego. E fazia sol. O jéca é ecologicamente sustentável mas não tem dó dos bichinhos — aliás nem pensa neles, nem pensa mesmo, vai pensar em bicho, peixe e frango é comida, cachorro não, e pronto. Afinal, peixe é fruta que nada. Enfim, alheio à própria cultura na qual vive imerso, vinha o jéca voltando daquela pescaria mal-sucedida. E trilhando a picada de chão sob o sol do fim de tarde ainda matutava o que ia dizer pra patroa por que voltava de mãos abanando. E uma nesga de medo, chamado eufemisticamente de receio muitas vezes, preocupava o jéca. E vinha matutando mentiras na lata de jéca pescador de córrego. A mentirinha era fácil de enganar a mulher, o pior mesmo era o que ele ia comer. A feira na cidade ainda estava longe lá no sábado, então já viu. Nessas cismas vinha andando, entre pedras e árvores caminhando pelo chão de terra, na trilha que percorria no fim de tarde debaixo do sol.

Eis que aconteceu o evento temático deste pequeno conto narrativo. Após virar uma curva com uma pedra de tamanho razoável, de altura maior que a de um homem médio, à margem da trilha de chão, o jéca deparou-se com um tipo de paletó preto e calças pretas e chapéu preto parado na trilha. O jéca olhou para o rosto do tipo, evidententemente o tinhoso evidenciado no título do conto, que sorria mostrando os dentes, e soltou um cumprimento bastarde típico da roça. Sentia uma estranheza naquele momento e mais uma ponta de medo — o jéca além de acomodado no canto era covarde — e fez que ia passar pelo tipo. Mas o cabrunco respondeu ao cumprimento e com sua postura firme impôs sua presença e perguntou o que o jéca vinha cismando. Uma conversa mole seguiu-se, e o jéca seguiu andando contente o seu caminho com um peixe grande na sacola e uma heróica história de pescador na cachola. Até aí não se preocupava com seu futuro destino faustiano e saboreou seu jantar sem culpa cristã. Assim a falsa tranquilidade da cachaça e da preguiça do jéca continuavam a envolver sua vida sem que ela de fato medrasse, até sua morte. E o progresso continuava avançando e engolindo essas paragens, e o jéca já sonhava com um emprego assalariado na indústria automobilística, porque o imposto da roça já estava alto e as vendas na feira não davam mais pra nada. E assim o jéca ia pro inferno.