Sou a complicação do implante metálico corporal.
Sou o vazamento crítico da usina nuclear.
Sou o metabolismo em funcionamento constante alimentado pela rede de impulsos elétricos e estímulos sensoriais.
Sou a busca pela vida artificial, o espírito binário encarcerado nas telas luminosas.
Sou a fome da família revirando os montes do lixão.
Sou a obsessão do magnata imperialista com a boca cheia de comprimidos.
Sou o produto da agricultura extensiva industrializado empacotado nas prateleiras dos supermercados.
Sou a garganta ressequida e os olhos fundos avermelhados.
Sou os detritos acumulados no fundo do tanque do automóvel.
Sou o saco plástico abarrotado esmagado no caminhão de lixo.
Sou a liturgia sagrada, a erudição maléfica, a guerra entre as tribos e o poder da pólvora.
Sou o desejo sexual induzido pela imagem plana da celebridade, a fomentação e a frustração do sonho de consumo, a observação passiva da sociedade do espetáculo.
Sou o crime, o vício e a inclusão digital.
Sou a formação acadêmica em engenharia do caboclo na ponte sobre o rio poluído.
Sou a melancolia do jeca.
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07 maio, 2009
11 agosto, 2008
Jécatown Freakshow --- Da roça ao caos, da roça à lama
Jovens em uma cidadezinha qualquer do mundo subdesenvolvido, vivendo à margem do sistema vigente, guiados por referências da publicidade e da indústria cultural, com valores e sonhos implantados, cultivados e desenvolvidos a partir de uma realidade distante, expressam-se coletivamente como uma massa de criaturas bizarras desencaixadas, aberrações mutantes e zumbis caipiras. Não há lugar para eles no mundo livre, e eles se recusam a olhar de fato para o lugar onde vivem, pois a realidade é demasiado sombria. Assim, em meio à loucura da fantasia, compõem uma existência caótica e desarmônica, refletindo a vontade de inclusão brotada da miséria profunda, passando pela vida superficialmente apenas. Fazem rally no asfalto, pagam mendigos profissionais por medo da lesão ao que mais estimam --- o carro, símbolo do sucesso do sonho americano no agreste cinzento ---, encontram-se em barzinhos, fofocam como comadres, falam sobre as novas calotas que puseram no veículo, assistem filmes, fumam pedra, vestem-se a rigor e se acabam em formaturas legitimadoras da mediocridade, perambulam pelas ruas com roupas largas, andam de skate, tênis importado e bicicleta, ouvem hip hop, eurotrash e maracatu. A heterogeneidade pulsa no microcosmo jéca, dissonante e ruidosa como uma sinfonia atonal, porém enlameada e sem qualquer critério matemático aparente, sem recursos, sem senso crítico e, sobretudo, sem consciência de si.
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